″No Porto aprendi tudo o que faço″ | MINHO Noticias
Connect with us

MINHO Noticias

″No Porto aprendi tudo o que faço″

Noticias

″No Porto aprendi tudo o que faço″

Já escreveu mais de 200 músicas, sempre com o Porto no coração e com o coração ao pé da boca. Rui Veloso, homem grande da música portuguesa, não gosta de que lhe chamem mestre nem lhe interessa ser referência. Recusa o método da indústria da cultura atual, que cria “artistas em tudo”, e garante ao JN: “Não existe uma fórmula para fazer uma música de sucesso.”

O Porto/Post/Doc passou esta semana um filme sobre o Chico Fininho, personagem do Porto que o Rui Veloso imortalizou. Viu o filme?

Aquela malta do filme é toda minha amiga. Só não conhecia o Vítor Norte, que era um puto na altura. É um filme sem guião. O realizador, Sério Fernandes, ia dizendo para fazerem o que quisessem. É um documento de época e foi um bocado um aproveitamento da onda do Chico Fininho, que foi uma coisa maluca. O disco “Ar de Rock” (1980) foi uma explosão. Portanto, ele foi ali tentar tirar nabos da púcara. Mas foi algo improvisado. É giro porque se vê o Iodo, uma discoteca que havia em Francelos. E vê-se a Foz, o Porto da altura.

Há sempre um Porto subliminar nas suas canções?

Está sempre presente! Nunca perdi a pronúncia do Porto e nunca quis perdê-la. Há tipos que vêm para Lisboa e querem perder a pronúncia. Mas isso é gente sem espinha, “spineless” como se diz em inglês, palavra de que gosto muito. Falta de estrutura, vá. Quando vou ao Porto, alimento-me disso, a pronúncia vem mais arrevesada quando volto. Foi lá que aprendi tudo o que faço. Tudo isso fica guardado no baú das memórias e do conhecimento.

Este ano fez algumas declarações polémicas, sobre o hip-hop e o Festival da Canção. O país ainda não está preparado para essa honestidade crua?

Este país perdeu um comboio que tinha de ser apanhado no 25 de Abril: o da cultura. Passámos do rés do chão para o 6.º andar sem passarmos pelos demais andares. Estamos cheios de artistas. Levantas uma pedra e tens um chef, um fadista, um cantor, um pintor… escritores, então, nem se fala. Escrevem todos, menos os escritores [risos]. Nem sequer perceberam bem o que disse sobre o hip-hop. Estava a falar da realidade dos EUA e da porcaria que a América exporta. Apesar de ter coisas gloriosas, como o jazz, o blues, o funk, a soul music ou a country. Ou o cinema, a literatura, a pintura. Mas essa América está a desaparecer. Exporta o gangster rap, aquilo que é do pior que há, a exibição gratuita da riqueza, a violência em geral e em particular contra as mulheres, a ausência de ideias, de propósito. Foi disso que falei. Mas a malta do hip-hop tem letras interessantes, dizem coisas com verdade.

Rui Veloso já começou a pensar na morte mas ainda não decidiu como celebrar os 40 anos de carreira, que completa em 2020. Não lhe faltam ideias, mas faltam-lhe mecenas. Em Portugal, critica, há poucos – e os que há preferem o futebol.

Como sente que é visto pela nova geração da música? Como referência?

Nunca pensei se sou referência ou não. Não me interessa ser referência, o que gostaria é que eventualmente gostassem das minhas músicas e das letras do Carlos Tê, aquilo que basicamente fizemos. Se se inspirarem numa música minha como me inspirei no Stevie Wonder, no Tom Waits, no Tom Petty ou no Buddy Guy, seria ótimo! Há muita malta nova que me trata como mestre, é uma coisa que me irrita um bocado. Porque no fundo estão sempre a lembrar-me que sou “cota”. Mas já não se fazem músicas como antigamente. O pessoal tem uma preocupação com a forma e a fórmula. A fórmula do sucesso, a varinha mágica, o toque de Midas! E isso não existe.

Agora é mais fácil ou mais difícil singrar na música?

A minha base é sempre a mesma: a música é para toda a gente mas nem toda a gente é para a música. Tem que haver uma seleção natural.

Em 2020 celebra 40 anos de carreira. Já tem planos para celebrar?

Em Portugal, é muito bom ter ideias mas é muito difícil colocá-las em prática. Uma pessoa precisa de um sponsor, mas os patrocinadores vão todos para os festivais e para o futebol. Aqueles festivais grandes secam tudo à volta, são tipo eucalipto. E o futebol, claro. Não existem mecenas. E os próprios mecenas também só gostam de futebol. Nem percebo bem o retorno que tem o futebol, porque uma operadora que aposte milhões numa equipa, quantos mais assinantes pode ganhar? Mais mil, menos mil. Enfim, é um grande mistério para mim.

São 40 anos de muita música, muitos concertos. Tem ideia de quantas músicas já gravou e editou? Dos álbuns originais, são cerca de 130…

Fiz mais de 200 músicas, mas não sei, não contabilizei isso [risos].

Confessou recentemente que começou a pensar na morte. Tem 60 anos, é muito cedo. Isso deu-lhe uma nova perspetiva sobre a sua carreira ou sobre o que ainda quer fazer?

Daqui a 10 anos já tenho 70 anos. Como tenho uma vida muito solitária, tenho muito tempo para pensar. Nos últimos anos têm morrido muitas pessoas que conheci ao longo da vida e claro que também começas a fazer contas à vida. Mas não alterou em nada a minha relação com a música.

Estamos vulneráveis à onda de populismos antidemocráticos que ameaça a Europa e o Mundo? Que papel têm a cultura e a música, em particular, para travar essa onda?

Temos um papel, claro. E acho que o mais importante que está a ser dito, nesta altura, vem do pessoal do hip-hop. Muitas vezes não tem filtros e é livre. É importante esta liberdade e ter consciência do que está à volta. Essa é a grande importância do hip-hop. É poesia de rua. É a origem do RAP, rythm and poetry, a malta nos EUA a falar dos seus problemas na rua. E é uma geração que se identifica com este estilo de música de tal forma que está por toda a parte. Quem escreve é muitas vezes malta inteligente, culta, sem banalidades. Mensagens com muito impacto na malta jovem e ainda bem. Fico muito contente com isso.

Source link

More in Noticias

To Top
%d bloggers like this: