Mais festivais, mais mulheres e uma ligeira descida no preço

Diminuição do IVA de 13% para 6% já está a refletir-se nos bilhetes de alguns festivais de música de verão.

O aumento é imparável e o embrião vem lá detrás, detetou-se em 2004 quando o país inteiro viu o potencial mercantil dos acontecimentos de massas (o Europeu de Futebol foi uma avalancha turística que atravessou o território costeiro e germinou) e viu nascer o 1.º Rock in Rio Lisboa, um novo tipo de festival global que acicatou a ambição dos outros festivais nacionais.

Desde aí, o quadro de valores dos grandes eventos de música é uma flecha numa só direção, basta ver a evolução crescente recente: em 2016 havia 249 festivais de música em Portugal, em 2017 cresceram para 272 e em 2018 já foram 311, superando a soma global de 2,5 milhões de espectadores (dados Aporfest), que atravessa praticamente ¼ da população (será um bocadinho menos porque todos os festivais também têm, genericamente, cada vez mais público estrangeiro).

A atração pelo “happening” artístico e pelo acontecimento social mantém-se para o ano que agora temos. Em 2019, diz a tendência da década, os festivais serão mais, serão maiores e melhores em sustentabilidade e boa prática ecológica (ou, pelo menos, de consciência…) e, ainda, com mais mulheres em cima do palco. É irrefreável a procura de paridade espoletada pelo movimento global de denúncia de assédios e iniquidades comportamentais conhecida pelo hashtag #MeToo, em marcha desde 2017, e que está a equilibrar (pela primeira vez na História?) o mérito artístico com o valor do cachet entre homens e mulheres. Um exemplo claro da mudança: Ariana Grande é a primeira estrela pop feminina com menos de 25 anos a subir à posição de cabeça de cartaz no astronómico festival indie de Coachella, nos EUA.

Preços já baixaram até 10 euros

Com a descida do Imposto de Valor Acrescentado nos bilhetes de espetáculos de 13% para 6% já efetiva desde o começo de Janeiro, as entradas nos festivais ficaram ligeiramente mais baratas e beneficiam quem decidiu comprar só a partir de agora – quem comprou em 2018 ainda pagou o IVA a 13% porque o exercício fiscal das suas produtoras teve que os contabilizar no imposto antigo.

Alguns dos maiores festivais já desceram os preços e o benefício para o espetador é da ordem dos dez euros em poupança. Três exemplos: no Alive (Lisboa, 12 a 14 de Julho; The Cure, Smashing Pumpkins e Robyn como cabeças de cartaz), o passe geral custa agora 139,77 euros em vez dos 149 euros de 2018 e um bilhete diário vale agora 60,98 euros em vez dos 65 euros anteriores. No caso do Primavera Sound (Porto, 6 a 8 de Junho; a catalã Rosalía e o inglês Jarvis Cocker já anunciaram presença), os passes baixaram de 110 para 103 euros e, ainda mais a norte, no festival Paredes de Coura (14 a 17 de Agosto; New Order, Patti Smith, Mitski e The National já confirmados), o passe geral desceu dos habituais 90 euros para os atuais 84 euros com IVA taxado a 6%.

Neste panorama de afinações fiscais, apenas um festival, o Marés Vivas de Gaia (19 a 21 de Julho), se apressou a anunciar o embaratecimento dos bilhetes ainda em 2018: a entrada de 1 dia passou de 35 euros para 33 euros e o passe geral de 3 dias passou de 65 euros para 61 euros. O seu cartaz tem já dois astros de chumbo: o inglês Sting e os portuenses Ornatos Violeta, que se reagrupam, mais uma vez, para um concerto especial, o da celebração do 20º aniversário do disco seminal “O monstro precisa de amigos”, que será executado na íntegra ao vivo (Gordon Gano, a voz dos Violent Femmes, virá para o dueto “Capitão Romance”?).

Mas nem todos desceram preços

A descida do IVA ainda não se traduziu em todos os festivais. Por exemplo, os passes para o Summer Fest (Ericeira, 5 e 6 de Julho; Young Thug já anunciado) e para o festival de Vilar de Mouros (22 a 24 de Agosto; Fischer-Z, Gogol Bordello, Anna Calvi e Clan of Xymox, entre outros) mantêm os mesmos preços do ano passado: 35 euros (sem campismo) para o festival do sul e 70 euros para o do Minho.

Já os passes gerais e os bilhetes diários para os festivais do Sudoeste (Zambujeira do Mar, 6 a 10 de Agosto; Timmy Trumpet, Russ e 6lack são os mais mediáticos já revelados) e Super Bock Super Rock (abandonou o betão de Lisboa e regressa este ano à romântica pradaria do Meco, em Sesimbra, de 18 a 20 de Julho; Lana Del Rey, The 1975, Superorganism e Kaytranada no cartaz) aumentaram ligeiramente ou mantiveram os seus preços. Assim, um bilhete diário para o Sudoeste continua a custar 48 euros, já o preço dos passes aumentou de 100 para 105 euros. O bilhete diário do Super Rock passou de 55 para 58 euros e o do passe geral de três dias de 105 para 110 euros.

Pesos pesados à solta em Lisboa

A pirâmide de popularidade dos festivais deverá perdurar conforme a conhecemos: o campo de férias do Sudoeste é o maior em massa humana (200 mil espectadores em 5 dias é a melhor média de todas), mas faz-se essencialmente com braçados de DJ. O Alive vai continuar a ser o maior ao vivo (165 mil pessoas). O Primavera Sound e o festival de Paredes de Coura irão manter a tendência de crescimento no lucrativo segmento das famílias, “adocicando” a desafiadora aspereza de edições anteriores. Este ano não há Rock in Rio Lisboa, que é bienal e só regressa portanto em 2020.

Com a expansão do mercado comprovada, o apetite das Câmaras municipais pelo ricochete mediático destes “eventos de felicidade coletiva” continuará – e com tendência a ver esse envolvimento aumentar. Um exemplo de serviço público no meio da paisagem florestal de dezenas e dezenas de festivais de média dimensão: o Semibreve de Braga, excepcional evento avant garde dedicado a perscrutar os futuros da eletrónica, é um acontecimento cada vez mais vital e, sendo exigente na relação estranha-se/entranha-se, há três anos consecutivos que esgota o Theatro Circo e a sala do GNRation, o que é um valente conseguimento, convenhamos…

Nos concertos avulsos já alinhados para o novo ano, há pesos pesados proclamados, mas são todos em Lisboa – o Fórum Braga, inaugurado no Verão como “a maior sala de espectáculos do Norte e Centro” tarda em afirmar-se na programação musical – com a exceção do “monstro” brasileiro Roberto Carlos que também vem ao Norte. Ei-los: Joan Baez (1 fev), Mastodon (17 fev), Massive Attack (18 e 19 fev), Slash (15 mar), Shawn Mendes (15 mar), Mark Knopfler (30 abr), Metallica (1 mai), Backstreet Boys (11 mai), Roberto Carlos (17 mai; Gondomar a 25), Ed Sheeran (1 e 2 jun), Rod Stewart (1 jul) e Muse (24 jul).

E agora uma pergunta desorbitada para todos os santos: será em 2019 que veremos finalmente Tom Waits (o bardo do alt-blues-rock fará 70 anos no dia 7 de Dezembro) a atuar pela primeiríssima em Portugal? Que se ateiem todas as velas votivas que for preciso incendiar… Quem tiver irreprimíveis saudades do autor de “Heartattack and Vine” pode safar-se momentaneamente na Netflix: Tom Waits é o protagonista de uma das histórias de “The Ballad of Buster Scruggs”, a última extravagância cinematográfica dos irmãos Coen, em que o segmento de Waits é claramente o melhor de todos e ele canta – ou, vá lá, pelo menos murmura naquela sua voz de sacarino avô cavernoso…




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