Erico Verissimo – Narrador brasileiro prodigioso

Erico Verissimo, filho de um empresário farmacêutico, nasceu em 1905, em Cruz Alta, no sul do Brasil, de ascendência portuguesa. No passado, sua família era próspera, mas na época de seu nascimento sua situação econômica estava ficando difícil. Seu pai era um bon vivant que gastava dinheiro descuidadamente.

Aos 15 anos frequentou a Escola Secundária Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre, instituição protestante, mas retornou a Cruz Alta sem graduação. Em 1922 seus pais se separaram e ele ficou com sua mãe. Em sua cidade natal, ele trabalhou em uma série de empregos até finalmente ir a Porto Alegre em 1930 para se tornar escritor. A combinação desse trauma familiar e a posterior morte solitária de seu pai em São Paulo o atormentariam pelo resto de sua vida.

Classificado ao lado de Jorge Amado, Erico Verissimo é um dos escritores mais populares do Brasil. Ele freqüentou o círculo literário dos escritores dos anos 30 em Porto Alegre. E ao lado de Dyonelio Machado, com quem dividiu um prêmio literário em 1935, criou a moderna ficção urbana do sul do Brasil. Por causa de sua clareza e exatidão, sua prosa é uma alegria para ler. É sabido que Veríssimo costumava chamar a si mesmo de contador de histórias. Mas, na verdade, ele era um romancista genuíno e suas histórias refletem sua notável versatilidade, sua perspicácia penetrante no caráter, seu brilhantismo na descrição de uma cena, seu talento para sondar os medos e desejos ocultos das pessoas comuns. Obviamente, ele amava seus personagens, não por quaisquer virtudes que eles possuíssem, mas exatamente como eles são.

Em 1929, Erico Veríssimo começou a contribuir contos para revistas e revistas. Sua primeira história “Ladrao de Gado“(“Ladrão de Gado“), apareceu no Revista do Globo em 1929 e seu primeiro romance, Clarissa, foi publicado em 1933. Além de muitos contos, livros infantis, autobiografia e viagens, ele escreveu cerca de trinta romances. Clarissa é um retrato impressionista da vida de uma jovem ingênua com passagens de poesia em prosa. Seu segundo romance Caminhos Cruzados (Encruzilhada), foi publicado em 1935. Seu terceiro romance, Musica ao Longe, sequência de seu primeiro romance, ganhou o Prêmio Machado de Assis em 1935.

Erico Verissimo foi apresentado pela primeira vez na língua inglesa em 1943, quando seu segundo romance foi traduzido por L.C. Kaplan e publicado pela Macmillan em Nova York. Encruzilhada é muitas vezes tomada para representar a condenação do autor à hipocrisia da pequena burguesia. Mais importante ainda, é representativo da arte narrativa de Verissimo, é composto de pequenas histórias vividas por personagens com diversas origens sociais, criando assim uma narrativa que não segue uma sequência linear. Então a história não tem um núcleo central.

Essa técnica de fragmentação aponta para a questão geral da influência na ficção de Veríssimo e, além disso, para a questão mais ampla de seu lugar no desenvolvimento do modernismo brasileiro. A dívida com Aldous Huxley e John Dos Passos era totalmente evidente e, em suas memórias, Veríssimo admitiu a influência da técnica do contraponto de Huxley. Em um artigo escrito para o suplemento literário do New York Times em 1943, o revisor de livros William Dubois comentou que Erico Verissimo tinha um estilo “elétrico”. Note-se que o próprio Verissimo traduziu em 1934 o romance de Huxley Point Counter Point (1928) para o português. Um segundo ponto a ser feito é que outra habilidade importante que nosso autor herdou da tradição inglesa foi como lidar com a passagem do tempo na ficção. Mas, parece-me que a influência realmente importante existe em um nível mais profundo de composição.

Por outro lado, os críticos concordam que a influência primária no primeiro estágio de sua carreira foi Francis James e Katherine Mansfield. Observe que ele foi tradutor de Edgar Wallace, James Hilton, John Steinbeck, Robert Nathan, Katherine Mansfield, W. Somerset Maugham, entre outros. Destes, ele não tinha dúvidas de que Maugham era um supremo mestre de contadores de histórias. Certamente a literatura inglesa será uma referência constante no trabalho de Verissimo. Durante o período em que morou nos Estados Unidos, teve o prazer de conhecer alguns de seus ídolos: Thornton Wilder, Pearl S. Buck, W. Somerset Maugham, John Dos Passos e Aldous Huxley. Ao mesmo tempo, Verissimo era fluente em francês e em 1949 teve a honra de fazer um discurso de boas-vindas ao romancista Albert Camus em Porto Alegre. Talvez por não gostar dos experimentos com a linguagem do romance francês moderno, sua atenção foi atraída pelas inovações estruturais dos romancistas ingleses.

Olhai os Lírios do Campo (Considere os lírios do campoMacmillan, 1948), o primeiro sucesso de Veríssimo, apareceu em 1938. Os personagens principais são dois médicos. Uma médica dedicada às questões sociais, Olivia, se apaixona por seu colega Eugênio. Ele tinha um passado pobre e estava em busca de uma fortuna fácil. Estando tão ansioso por reconhecimento social, ele vira as costas para Olivia e decide se casar com uma mulher rica. Mas ultimamente Eugenio e Olivia se tornam amantes e têm uma filha. O momento decisivo para Eugenio ocorre quando Olivia está em seu leito de morte. Um dos avanços mais óbvios entre Considere os lírios e a ficção anterior está no uso moderado e mais aguçado do diálogo. Agora, o discurso indireto livre é usado para descrever os pensamentos não falados dos personagens sem recorrer ao diálogo convencional. Além disso, os flashbacks são destacados por itálico para ajudar o leitor a entender a passagem do tempo.

De fato, o romance é de grande pathos e, às vezes, sentimentalismo indulgente que atraiu enormemente seus leitores e foi fundamental na construção da grande popularidade de Verissimo. No entanto, é preciso admitir que o romance também é característico do realismo de Veríssimo. A história se passa à sombra da Revolução de 1930. Há até algumas observações críticas sobre o programa político de Getúlio Vargas, o ditador brasileiro. Desde que seu segundo e quarto romance tocou algumas questões sociais delicadas, Veríssimo caiu sob a suspeita do comunismo, enganando o público, acreditando que seus livros eram imorais.

O que mais o atraiu imediatamente foi a busca de liberdade e os estados internos de sentimento de seus personagens. Tradicionalmente o crítico divide a ficção de Verissimo em três níveis: a) a crônica das cidades e da burguesia; b) a revisão histórica; ec) a sociedade mundial. A fase intermediária leva sua arte a uma dimensão inteiramente nova.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que, como os escritores pós-modernistas, os trabalhos de Verissimo demonstram conhecimento de sua própria ficcionalidade. Verissimo continua mostrando sua criatividade ao longo de toda a sua vida e acaba alterando sua trajetória ao perceber que sua tarefa mais importante era recriar a história de seu estado natal, o Rio Grande do Sul. Certamente a escrita de O Tempo e o Vento (Tempo e o ventoMacmillan, 1951) foi um ponto de viragem na sua carreira. A história consiste em três partes e é a magnum opus de Verissimo. A composição e publicação da saga completa foram realizadas durante os anos 1947-1962. A história foi traduzida para inglês, francês, italiano, alemão, espanhol e holandês.

Em 1954 apareceu Noite (NoiteMacmillan, 1956). As pessoas não esperavam que Erico Verissimo escrevesse um romance sombrio. Mas precisamos lembrar que durante toda a sua vida ele era um ávido leitor de mistérios. O romance leva o leitor a um mundo claustrofóbico, onde o personagem principal amnésico, “o Estranho”, procura sua identidade. Seus companheiros durante uma noite terrível são um cafetão cínico e um anão psicopata, os dois pássaros noturnos que ele encontrou em um bar sórdido, um café baixo ao longo das docas. E a noite ao longo da cidade está sempre lá oprimindo o estranho. Apesar de ser uma narrativa sobre a solidão, há muito humor em Noite.

Agora é necessário olhar para os livros em que Verissimo revela seu pensamento político. Esse é o tema de O Sr. Embaixador (Sua Excelência o EmbaixadorMacmillan, 1967), publicado em 1965, e O Prisioneiro, publicado em 1967. Esses romances devem ser vistos como um desenvolvimento das idéias de Veríssimo sobre o imperialismo. É claro que a cena internacional permeia a última fase literária de nosso autor.

Sua Excelência o Embaixador Está ambientada na imaginária república centro-americana de Sacramento e em Washington D.C. A novela mostra os conflitos de um artista, Pablo Ortega, durante o período em que trabalha em Washington com o embaixador latino que representa a ditadura. Pablo Ortega está se esforçando muito para decidir se deve apoiar uma revolução comunista em Sacramento. Finalmente, em O Prisioneiro Verissimo nos leva ao conflito do Vietnã e explora o conflito moral enfrentado por um tenente negro que aparentemente deve torturar um prisioneiro vietcongue.

As obras de Verissimo parecem nos oferecer muitas formas de manipular conflitos e aproveitar a vida. Aberto a infinitas possibilidades de leitura, sua ficção finalmente alcançou seu reconhecimento. Erico Verissimo morreu de um ataque cardíaco em 1975.


Source by Marco A. Bomfoco