Campanhã à espera de ganhar vida nova

Será um dos primeiros documentos estratégicos para a cidade apresentados em 2019 pelo Executivo de Rui Moreira.

É já este mês que, em reunião de câmara, será conhecido o tão esperado “Masterplan” Estratégico para Campanhã, zona oriental do concelho da qual faz parte o lugar de São Pedro de Azevedo, isolado por autoestradas e praticamente estagnado no tempo.

No principal arruamento da localidade, Diamantino e Serafim falam do atraso de Azevedo. “Estamos fora do centro da cidade e a câmara não liga nada a isto”, conta Diamantino Silva, de 75 anos, e que foi morar para Azevedo assim que casou, há 50 anos. “Parece mentira mas está tudo na mesma. Parece que ficamos parados no tempo!” Serafim Marques, tem 91 anos, sempre morou naquele lugar e confirma a versão do amigo. “Tirando um ou outro muro que foi arranjado, um prédio novo aqui ou ali e uma rua que de terra batida agora tem paralelos, tudo está na mesma”, explica.


Um lugar de lugares

Azevedo é um lugar de lugares. É uma parcela de território separada da restante freguesia de Campanhã e da cidade, amputada primeiro no século XIX quando foi criada a Estrada da Circunvalação e mais recentemente pela Via de Cintura Interna (VCI) e pela A43, que liga o Porto a Gondomar. E é com este concelho vizinho que São Pedro de Azevedo acaba por ter mais afinidade. São Pedro de Azevedo, Areias, Freixo, Meiral, Granja, Calvário, Furamontes, Pego Negro e Tirares tem perdido residentes. A população envelheceu e os serviços vão desaparecendo. Assim como as coletividades. Os mais jovens, para praticar desporto, vão agora para os clubes de Gondomar.


Poucos transportes

Além dos fracos acessos viários, há poucos transportes públicos. A privada Resende tem a linha 106 a passar no lugar. Faz a ligação até à Boa Nova, em Leça. A STCP opera com o 400, entre os Aliados e o Parque Nascente, e com o ZC, o miniautocarro que também percorre as zonas da Corujeira, de Bonjoia e do Freixo. É nele que Serafim embarca, com a saca de pão na mão, de regresso a casa. Agora mora nas Areias mas, durante muitos anos, fabricou móveis de cozinha numa oficina do rés do chão da casa onde morava, na Rua de Azevedo.

“Antigamente havia aqui mais comércio e coletividades. Jogava-se cartas e haviam bailes. No clube Gabinete e nos Bem Entendidos. Tudo desapareceu e ao domingo até os cafés estão fechados”, diz com mágoa Joaquim Moreira, de 75 anos, que recorda os tempos que atravessava os campos da Rua Nova de Azevedo à Ponte do Gato, onde morava.


Com Lagarteiro e sem Dragão

O lugar de Azevedo mantém o ar bucólico, romanesco e rural. “Parece que estamos no tempo de D. Afonso Henriques”, diz a brincar Joaquim Moreira. Na mercearia de Manuel Santos, a clientela tem a mesma opinião. “Estamos no cu do Porto”, brinca Elisa Duarte, que só tem pena que o estádio do Dragão não tenha sido construído em Azevedo, como chegou a ser pensado. “Hoje, a situação seria bem diferente”, acrescenta Rosa Gomes, também na mercearia.

O presidente da Câmara do Porto tem plano para Azevedo e já afirmou que a localidade terá de ser tratada “como filigrana”, embora reconheça que há ali um problema social: o bairro do Lagarteiro foi ali construído para revitalizar o lugar. O efeito foi contrário e a insegurança persiste. Por isso não há um multibanco. “Tenho de andar a pé três quilómetros para levantar dinheiro nas bombas de gasolina do Freixo”, conta Paula Sousa, que com a cunhada, Hermínia Lopes, descem a Rua do Meiral. “A rua das viúvas! Só existe aqui um homem”, riem.

“Esperemos que desta vez aquele lugar não seja esquecido, embora considere que uma ARU (Área de Reabilitação Urbana) fosse a solução ideal”, refere o presidente da Junta de Campanhã. Ernesto Santos já fez a proposta tendo a câmara “ficado de dar uma resposta”.

O “Masterplan” que dentro de dias será apresentado numa reunião do executivo municipal vai mudar Campanhã por contemplar um conjunto de projetos estruturantes. A câmara não avança com pormenores, mas os pilares do plano serão a nova ponte sobre o Douro, a reconversão do antigo matadouro da Corujeira e o Terminal Intermodal de Campanhã.

6 mil habitantes de uma zona envelhecida – O lugar de São Pedro de Azevedo já teve mais moradores. Hoje são cerca de seis mil os habitantes e a tendência é a diminuição. A freguesia-mãe, Campanhã, uma das mais populosas do Porto, tem 32 mil.

2,5 quilómetros quadrados de Azevedo – O lugar de Azevedo faz fronteira com as freguesias de Rio Tinto e Valbom (Gondomar).

O “Masterplan” Estratégico de Campanhã visa resolver os problemas de coesão social e territorial daquela freguesia mais oriental da cidade e que ocupa cerca de um quinto do território da urbe. A regeneração desta zona está a cargo do Pelouro do Urbanismo, sob a responsabilidade do vereador Pedro Baganha.

Zona rural – A paisagem natural e antiga de São Pedro de Azevedo permanece praticamente intacta e contempla um vasto e rico património como os rios Tinto e Torto, as quintas e capelas, os moinhos e miradouros, o famoso Palácio do Freixo, assim como os bairros, oficinas e comércio tradicional.

Viveiro municipal – Árvores, arbustos, herbáceas e muitas flores. Trata-se do Viveiro Municipal de onde saem 90% das plantas utilizadas nos canteiros e jardins da cidade. Durante a Segunda Guerra Mundial produziu bens de primeira necessidade para as instituições públicas do Porto. Espaço aberto ao público, mas as visitas são por marcação.




Source link