Casas portuguesas mal preparadas para o frio

Morrer de frio parece coisa de outro Mundo, mas é uma realidade assustadora e bem próxima. Nas cidades portuguesas, o frio mata mais do que em outros países da Europa, que registam temperaturas consideravelmente mais baixas do que as nossas. As casas portuguesas são frias por excelência.

Aliás, até 1990 não era exigido por lei qualquer tipo de isolamento. Além disso, temos eletricidade da mais cara da Europa. Como consequência, a saúde sai a perder. E, muitas vezes, o desfecho é fatal. Atualmente, a legislação em vigor já obriga a determinados cuidados para as casas novas, no que refere ao desempenho energético dos edifícios, o que contribui para existir um maior conforto nas construções mais recentes, com menos gastos. E há uma diretiva europeia, que entrou em vigor a 1 de janeiro, que obriga os edifícios públicos a terem pouca, ou quase nenhuma, necessidade de energia. Em 2021, aplica-se o mesmo aos edifícios particulares.

“Cerca de 74 % dos portugueses consideram as suas casas frias no inverno. A maioria recorre a mais roupa e a mais equipamentos para colmatar as necessidades de aquecimento”. A afirmação provém de um relatório do Portal da Construção Sustentável, do ano passado, feito com base nos resultados de um inquérito, realizado com a colaboração do Grupo de Trabalho de Construção Sustentável da Quercus. O documento acabou por vir sustentar o que a Universidade de Dublin já tinha concluído, em 2003: Portugal é um dos países onde mais se morre por falta de condições de isolamento e de aquecimento nas casas.

A realidade mantém-se atualmente. “A maior parte das casas portuguesas não está preparada para o frio. Noutros países, com temperaturas mais frias do que o nosso, o aquecimento está ligado 24 horas por dia. As famílias portuguesas não têm hábito de aquecimento, muito devido aos custos da energia”, atesta Vasco Peixoto de Freitas, professor catedrático de Construções, na Universidade do Porto (UP).

O certo é que temos casas com isolamento térmico insuficiente, com portas e caixilharias desadequadas, que potenciam as perdas de calor. Frias. Como minimizar, então, os efeitos do frio nas nossas casas? “Bom isolamento e usar energias renováveis” é, segundo Vasco Peixoto de Freitas, uma das soluções que permitem gastar menos dinheiro em energia elétrica, para manter um edifício a uma temperatura agradável. “O isolamento na envolvente é extremamente importante. É fundamental isolar as coberturas com várias camadas de isolamento térmico. Mas, alerta, mesmo que se tenha uma casa superisolada, se não se gastar dinheiro em energia ela não vai ser quente”, sublinha o especialista.

Depois, há a escolha dos materiais – com um mercado cada vez mais vasto -, para garantir bom isolamento, privilegiando, por exemplo, materiais leves, como lãs minerais ou cortiça. O tijolo vem caindo em desuso. E as paredes duplas, com isolamento térmico na caixa de ar, são também cada vez menos utilizadas. O paradigma da construção está a alterar-se, para conseguir dar resposta às necessidades de conforto da população. Aliar a construção de uma habitação ao conforto térmico do edifício tem vindo a ser, cada vez mais, um dos desafios enfrentados por arquitetos e engenheiros civis. Para Álvaro Andrade, da Faculdade de Arquitetura da UP, “não pode haver uma boa arquitetura num edifício em que, no interior, as pessoas morrem de calor, porque, por mais elegante que seja, será um fracasso”. Além disso, “uma boa arquitetura tem que ter implícito, hoje em dia, ser sustentável”.

Associada ao conforto térmico surge, invariavelmente, a questão da eficiência energética dos edifícios. Em Portugal, existe há cinco anos uma lei (118/2013), que regula, de uma forma conjunta, o desempenho energético dos edifícios de habitação e de comércio, tal como estabelece a regulamentação térmica dos mesmos. E veio aumentar as exigências, ao nível do conforto térmico das novas habitações. Mas continua a haver trabalho a ser feito nesse campo, como o que está a ser desenvolvido por Vasco Peixoto de Freitas, que integra um grupo de trabalho que reflete sobre a viabilidade de aplicar as normas ao edificado econstruído, “tendo em conta a capacidade económica e cultural” dos portugueses, entre outros aspetos.




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